21/10/2014

" Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário estar onde nem nós próprios estamos. "






No domingo, quando saía do trabalho, passei pela cafetaria do sítio para dar uma vista de olhos no jornal e tomar café. Ao contrário do que seria de esperar, pois transmitia na tv o jogo do FCP-SCP, as mesas estavam vazias, e apenas um senhor, idoso, estava ali sentado, com os olhos fixos no ecrã. Sentei-me na mesa ao lado da sua, e enquanto bebericava o café, desfolhava o jornal, sem dar grande atenção às notícias.

O senhor do lado, interveio.
- Está a jogar o Sporting...
Levantei os olhos para o televisor, algo desinteressado, e acenei com a cabeça, anuindo.
- Foram eles que marcaram, mas nós é que estamos a ganhar! - disse ele gargalhando, em jeito de gozo.
- Ahhh, foi auto-golo??!!
- Foi, sim!- e mais uma gargalhada, enfiando a cabeça entre os ombros, com um sorriso provocador.
- O jovem é por quem?- inquiriu.
- Sou por todos...
- Ahh, deixe-se de coisas, não faz mal ser-se de quem está a perder. Pode dizer! Diga!
- A sério. Gosto de ver futebol, mas não torço por nenhum em particular. Gosto apenas de ver bom futebol, alheio a cores e até nacionalidades.
- Mas não tem assim um gosto especial por um?!
- Já tive, em miúdo. Fui-me desinteressando.
- E qual era? Não me diga que era um dos nossos? Era?!
Não, não era! Mas vi-lhe tanto entusiasmo nos olhos, que decidi que era do Sporting desde pequeno!
- Do nosso Sporting, de quem mais poderia ser??!!!
- Ah, ah, ah! Dê cá um aperto!
Cheguei-me a ele e abraçamos-nos com uma palmadinhas nas costas.
A conversa prosseguiu. O Sporting e o jogo ficaram de lado, embora eu fosse prestando atenção ao resultado, mas o senhor, falou-me de si, de quando tinha sido emigrante no Canadá, das dificuldades e contrariedades da vida, das alegrias dos filhos, todos eles licenciados e bem colocados, dos 5 netos, da casa esquecida na aldeia, duma curta passagem pela Austrália, do dinheiro que se fazia, porque sim, fazia-se dinheiro, porque agora ele não vale nada, dos gatunos do governo, da saúde que vai bem, graças a Deus, da esposa que morrera nos seus braços e da imensa saudade que dela sentia, já lá iam 10 anos, e do medo e aperto que sentia quando chegava a noite, batia a porta atrás de si, e ficava sozinho, e quando chegasse o Inverno, nos dias de chuva, mais tempo passaria por casa, mais lhe sufocaria o silêncio...
- Não imagina, como me sinto sozinho! Odeio aquela casa!
Sugeri alternativas, mas essencialmente, deixei-o falar e limitei-me a ouvir.
O jogo terminara, e o "nosso" Sporting ganhara! No campo, os intervenientes cumprimentavam-se, com gaúdio de uns e pesar de outros.
- Já acabou?!
- Já...
- Ai eu nem acredito que o Sporting ganhou ao Porto, e em casa deles! Que vergonha! - risos de satisfação.
Seguiu-se a série de entrevistas curtas no rescaldo do jogo e o técnico do Sporting fazia os comentários.
- Eu conheço aquele homem, mas agora de repente não me estou a lembrar quem é...
- É o treinador do Sporting!
- Ahhhh.... e como se chama??!!
- ... Marco Silva.
- É um moço novo.

Quando cheguei a casa e bati com porta atrás de mim, logo de imediato me soaram as palavras do senhor. Não me sinto sozinho, mas compreendo-o e lamento...
Acabámos por nos despedir, trocámos os nomes, até então desconhecidos, e trocámos números de telemóvel. Prometeu que me visitaria sempre que lá fosse. Desde então, tem lá ido todos os dias comprar pão... Chama-se Serafim, tem 78 anos e é do clube de Alvalade.


| Air - Sebastian Bach |





8 comentários:

  1. João deves ter cara de bom rapaz;)Esses SENHORES nunca se enganam!!!

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    1. Til, faço voluntariado há anos nas ruas da minha cidade, o que me faculta alguma experiência no que ao assunto diz respeito. A única grande diferença entre este senhor e os da rua, é o sítio onde dormem. Não publiquei o post inocentemente, mas sim com a intenção de partilhar uma realidade patente e que me é familiar.
      Os senhores de que falas, são outros...

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    2. ...garantidamente!

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    3. Explica porque não percebi:(

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    4. Se calhar fui eu que não percebeu. Esquece!
      Bom dia :)

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  2. Um "amigo" que, no meio das agruras, também não sabe quando (ou se) volta... dizia que a única coisa inteligente na vida é nascermos e morrermos sós e estúpidos*. A maior de todas, talvez seja desejarmos a felicidade num meio que nos será sempre por ironia, é certo, hostil. E no entanto é essa estupidez que nos anima, se compreendessemos a realidade talvez definhássemos em segundos.

    * http://www.outranaferradura.blogspot.pt/2014/01/maravilhosa-estupidez.html

    Mas esse é meio doido. Já a tua história é boa, aliás, muito boa.

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    1. Ah! E esquecia-me de assinalar que Bach é doutro mundo, onde espero que me aguarde quando eu lá chegar, mesmo que esteja só à porta (acho que o calor lhe queimava as pautas num instante).

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    2. "A justificação para todas as derrotas resulta da recusa em aceitarmos a nossa solidão intrínseca e a derradeira realidade, talvez a única coisa inteligente que nos enforma, o facto de nascermos e morrermos sempre sós e estúpidos." - talvez seja este o único momento em que estamos verdadeiramente sós... ainda que estupidamente nunca isso nos tenha ocorrido durante o período de vida. :)))
      Obrigado pela partilha!

      O "Sebastião", é sim, de outro mundo!! Fosse lá o sítio para onde vamos, ou onde eles estão, tão bom quanto a música de Bach... Olha, que seja!
      :))
      Abraço.

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