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27/03/2015

A carreira 21 - Os da paragem.



Do outro lado da estrada mirou a paragem. Estava vazia. Já por diversas vezes se tinha aproximado, rondado o sítio, fitado algumas pessoas, mas sempre por tempo curto, numa fugida, sem se demorar. Parecia até que temia, não sabia bem porquê, nem sequer sabia se era esse o sentimento, mas o certo era que por alguma razão não queria ali estar. Deixara portanto de falar com as pessoas, de as escutar e de as observar.

Há tempos, concluíra que, de algum modo, as pessoas o aborreciam, e incomodava-o essa sensação. E seria essa então a razão pela qual se afastara desta e de todas as outras paragens. O problema não era aquelas pessoas em particular, com quem ali convivia. Não! Mas as pessoas, o mundo, a sociedade, a gente, os passantes, os mirones, os comentários inúteis, fúteis, carregados de faz-de-conta, roçando a indiferença e que saíam em série, qual máquinas que executam e não pensam, apenas executam, Copiativos, portanto.

Decidiu atravessar a estrada e sentou-se. Não muito tempo depois, alguém que já conhecia daquela e de outras paragens, sentou-se a seu lado. Sorriram-se pela boa surpresa da companhia e após algum tempo em silêncio o outro, um que se dizia pelas bandas que era o "homem elástico", questionou-o:

   - Já posso subir ao 6º esquerdo, por em andamento o Carmina Burana, e anunciar que voltaste?
   - Meu caro, o Carmina Burana e outros que tais, não tocam no 6ª esquerdo. Por lá a música é outra. Além de que o 6º esquerdo está ainda impregnado com o cheiro, as palavras, os sons e imagens dela... percebes?! Pelo que...
   - Deixa-te de coisas coisas, Mr!
 

Entretanto um outro se ajuntara, sentando-se na outra ponta do banco, também este conhecido de outras paragens. Trazia na mão um pacote de pipocas e levando-a ao fundo, remexeu, tentando apanhar os grãos de milho inflamado que restavam, e encheu de novo a boca. Sentados lado a lado, pensativos, ouviam-no mastigar, e irrompendo o silêncio "o da Cidade", disse:

   - Anda lá com isso pá, as pipocas estão a acabar! Ainda te demoras?! E deixa-te de coisas ranhosas e esquisitas de que as pessoas te aborrecem...
   - Alto lá! Esquisito o quê? Não penses que é como aqueles em que tudo os aborrece, e que já estão fartos de rotinas e decidem experimentar coisas novas. Naaaahhh! Nada disso! Vamos lá ver...!


Formou-se logo ali uma algazarra, e falavam todos em simultâneo.
Rematando e calando-os, disse-lhes:

   - Bem, tenho aqui o Folheto Semanal.

E elevou-o para que os do lado o pudessem ver, abriu-o e disse:

   -Vamos lá ver o que temos esta semana... hmmm, ao que parece há hamburguers... hmmm, e eu já comia...!!




05/12/2014

A carreira 21 - "A bem arranjada."




Estava frio e sentia-se um vento gelado, daquele que corta a pele e a seca. Esfregou as mãos e pediu para que rapidamente viesse alguém, caso contrário teria que ir embora. Mais depressa tivesse formulado o desejo, tão rápido se satisfaria.

Uma mulher, jovem, talvez na casa dos trinta, algo robusta, mas não anafada, sentou-se a seu lado, mesmo na ponta do banco da paragem do 21. Olhou para dentro do saco que deitou ao colo e procurou, remexendo. Ele sorriu e pensou: As mulheres e os seus sacos, é sempre uma surpresa, nunca sabemos o que dali pode sair, e ao mesmo tempo esperamos que ali tenham de tudo. É surpreendente! E arqueou as sobrancelhas, arregalando os olhos.

Ela sentiu os seus olhos revirados e perguntou, incomodada.
-Qual é o problema? Tem algum problema??!! Estou a mexer no que é meu!
- Não, menina! De modo algum. Estava apenas aqui a pensar para comigo. Nada mais!
- Acho bem!
Tirou do saco uma escova de cabelo e penteou-o vigorosamente. Era comprido, algo ondulado e luzidio. E voltou a guardar a escova. Ficaram ambos parados, olhando-se pelo canto do olho. Uma rajada de vento despenteou-a e ela foi de novo com a mão ao saco e repetiu o procedimento anterior.
Virou-se para ele disse:
- Tenho que estar bonita, sabe?! Tenho que chegar a casa bonita, e bem arranjada, ou então ele vai.
- Vai embora?
- Não! Vai procurar outra. É assim, a gente tem que andar arranjada, senão eles começam a procurar melhor por fora. Ah, pois é!
- Pois...
- São uns tolos e anda por aí muita moça ainda mais tola do que eles. Umas galdérias, sabe?! Só lhes sabem fazer porcarias, e eles gostam, sabe?!
- Pois...
- Estou a fazer dieta, sabe?! Já emagreci, mas ainda falta mais. E vou ficar no ponto, não acha?
- Pois, vai sim, claro que vai...
- Mas aquelas porcarias é que não, sabe! No outro dia pediu-me... mas eu, não... não fiz e pronto, sabe!
- Sei, sim...
- É, eles gostam. E você bem o sabe, é homem também!
- Pois...
- Ouça lá, você não sabe dizer mais nada?! Pois, pois, pois... olhe, vem aí o 21. Até à próxima!
- Até à próxima e felicidades. Espero que consiga o que quer e não desista, não o deixe ir, ainda que... sabe?!
- Porco!!!
Entrou no autocarro e mostrou-lhe o dedo do meio, gordito e com a unha pintada de azul.
Azul???!!, exclamou. Cruzou os braços e pensou: está bem, azul... são gostos, mas azul!! 
Estava na hora de ir embora, fazia frio e dali nada melhor hoje sairia. Tinha o caminho de volta a casa para vaguear sobre as porcarias que eventualmente ela estaria a referir-se. Um universo tão vasto, mas que ao mesmo tempo poderia tornar-se tão estreito e limitado, a sexualidade. Ora vamos lá ver... porcarias... e foi trauteando os acordes duma musica de que se lembrara logo ali..

| Did a Bad Bad Thing - Chris Isaak |




05/11/2014

A carreira 21 - "Do you want a Chocolate?"



Fazia já algum tempo que se sentava ali naquele banco da paragem de autocarro. Quase diariamente, mas sem hora marcada, dirigia-se aquele sítio, e aí, por tempo indeterminado, mas sempre antes do anoitecer, passava algum tempo. Não era muito concorrida, pelo menos à hora a que ali estava, fosse ela qual fosse, talvez pela manhã o tivesse sido, pois que havia sempre muitas pessoas à saída, mas à partida eram sempre contadas a dedo.

Chegava, sentava-se e esperava que alguém fizesse o mesmo. Entretanto observava os passantes, escutava os ruídos, sentia a vida que por ali circulava, e esperava. Acabava sempre por vir alguém. Alguém que ficava e que contava algo. Havia sempre uma história, um segredo, uma confissão,um mexerico, um desabafo. Havia sempre algo que dizer, mais não fosse sobre o tempo, e não sobre o tempo que decorria, mas sobre o frio que finalmente chegara e que ele tanto gostava.

Há dias pensara em levar uma caixa de chocolates e oferecer aos que consigo partilhavam uma, ainda que curta, conversa. Sorriu e lembrou-se daquela cena do filme do Forrest: life is like a box of chocolates, you never know what you're gonna get... sim, tal e qual como as histórias que ali ouvia, nunca sabia o que dali sairia. Mas achou por bem não o fazer. Nos dias que corriam, as histórias que se ouvia, não ele, mas as que o mundo ouvia, havia sempre que ter cuidado, pois os gestos já não eram tidos como antes, e o que outrora era um agrado, hoje poderia ser uma perversão. E assim, decidiu agraciar as pessoas com um simples "obrigado", um sorriso e o desejo de um bom dia.

Olhou o relógio e inclinou a cabeça ao céu, manchado de espaçadas nuvens grandes, o sol daqui a nada partia, pois agora que os dias eram mais curtos e as noites mais longas, mais se estreitava o tempo que ali tinha. Alguém chegaria! Chegava sempre alguém...