05/11/2014

A carreira 21 - "Do you want a Chocolate?"



Fazia já algum tempo que se sentava ali naquele banco da paragem de autocarro. Quase diariamente, mas sem hora marcada, dirigia-se aquele sítio, e aí, por tempo indeterminado, mas sempre antes do anoitecer, passava algum tempo. Não era muito concorrida, pelo menos à hora a que ali estava, fosse ela qual fosse, talvez pela manhã o tivesse sido, pois que havia sempre muitas pessoas à saída, mas à partida eram sempre contadas a dedo.

Chegava, sentava-se e esperava que alguém fizesse o mesmo. Entretanto observava os passantes, escutava os ruídos, sentia a vida que por ali circulava, e esperava. Acabava sempre por vir alguém. Alguém que ficava e que contava algo. Havia sempre uma história, um segredo, uma confissão,um mexerico, um desabafo. Havia sempre algo que dizer, mais não fosse sobre o tempo, e não sobre o tempo que decorria, mas sobre o frio que finalmente chegara e que ele tanto gostava.

Há dias pensara em levar uma caixa de chocolates e oferecer aos que consigo partilhavam uma, ainda que curta, conversa. Sorriu e lembrou-se daquela cena do filme do Forrest: life is like a box of chocolates, you never know what you're gonna get... sim, tal e qual como as histórias que ali ouvia, nunca sabia o que dali sairia. Mas achou por bem não o fazer. Nos dias que corriam, as histórias que se ouvia, não ele, mas as que o mundo ouvia, havia sempre que ter cuidado, pois os gestos já não eram tidos como antes, e o que outrora era um agrado, hoje poderia ser uma perversão. E assim, decidiu agraciar as pessoas com um simples "obrigado", um sorriso e o desejo de um bom dia.

Olhou o relógio e inclinou a cabeça ao céu, manchado de espaçadas nuvens grandes, o sol daqui a nada partia, pois agora que os dias eram mais curtos e as noites mais longas, mais se estreitava o tempo que ali tinha. Alguém chegaria! Chegava sempre alguém...





4 comentários:

  1. Nem sempre chega alguém,nem mesmo para comer chocolate!!!

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    1. Assim sendo, fazemos com a Til, falamos com Eu... naqueles dias mais rabugentos, percebes?! :)))

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  2. Belíssimo texto que já valeria bem por si, mas esse fundo musical deu-lhe ainda mais sabor, pão com doce cheio de vitaminas. ;)

    O mundo tornou-se um lugar estranho. E no entanto tu ainda arriscas... Se não nos doces, na fala. Assim, invejo-te.

    "Não gosto de criar falsas expectativas acerca de possíveis laços que nasçam de coincidências absurdas. No absurdo de certos dias é o máximo que consigo fazer por alguém."

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    1. O fundo musical quase, quase que cheira a fundo de um conto de Natal. Mas dos bons, daqueles em que somos crianças e nada nos preocupa, nem a chuva... :)))

      O mundo cada vez nos arrasta mais para o precipício, onde nos arriscamos a cair. É uma tentação, é o caminho mais fácil, é apenas um passo... só não sabemos o porquê de não o ter feito, talvez aquela réstia de força para usar no tudo do pouco que falta... e pronto, depois há as gajas, e a música, e a comida, e os amigos, e a família... e o pão, olha o pão para tirar do forno!!! Joãããão!
      :)) Obrigado!

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